PAISAGENS TECNOCULTURAIS PORTUGUESAS NO SÉCULO XXI

Retratos do Território Português 2017


Portugal enfrenta sérios entraves para o desenvolvimento e coesão territorial, assentes em fortes assimetrias identificáveis e conhecidas. As recentes políticas nacionais e europeias apostam na valorização da identidade regional, amplamente entendida como o caminho para a criação de novas dinâmicas num quadro de sustentabilidade e de qualidade de vida dos cidadãos. 

Esse enfoque na especificidade regional traduz-se no seu património cultural e arquitectónico, na valia ambiental e natural, e deve considerar, também, as suas características híbridas, sejam centros urbanos, territórios industriais e rurais, ou, como em grande parte do território, as redes que o atravessam. Este desígnio de progresso regional encontra, no entanto, persistentes constrangimentos de actuação que importa identificar, pois condicionam uma intervenção eficaz e uma utilização efectiva dos programas europeus de apoio e de investimento disponíveis para Portugal. Este é o contexto que desperta a elaboração deste dossier de síntese que pretende ser, apenas, parte de um contributo colectivo e de uma dinâmica positiva para destacar viabilidades de cooperação e de envolvimento activo da academia, das autoridades locais, de parceiros especialistas e dos jovens talentos deste país na abordagem de oportunidades que as regiões encerram.


PAISAGENS TECNOCULTURAIS PORTUGUESAS NO SÉCULO XXI

Comissão do projecto: Fundação Serra Henriques

Coordenação geral: Inês Moreira [Universidade Nova de Lisboa]

Coordenação científica: Álvaro Domingues [Universidade do Porto]

Da obra do geógrafo Orlando Ribeiro ficou uma obra maior - Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico - que exprime notavelmente razões da forte assimetria do país apesar da sua reduzida dimensão. Essa assimetria mergulha no tempo longo da história e no tempo ainda mais longo dos processos biofísicos, do clima à geomorfologia. Outros autores mais recentes, geógrafos como João Ferrão, falam no país-arquipélago. Boaventura Sousa Santos usa a expressão semiperiferia para, em pleno processo de globalização, caracterizar as contradições e contrastes de Portugal face à multipolaridade do mundo. Podíamos continuar a citar mais autores e obras de referência. Chegaríamos sempre a conclusões semelhantes sobre a sociedade/território portugueses, entre outras:

  • um mosaico extremamente variado de formações sócio-territoriais;
  • uma evolução assimétrica dessa assimetria, consoante os contextos históricos em presença (emigração pós-segunda guerra, industrialização, desruralização, urbanização, etc.);
  • uma persistência das marcas pré-modernidade rural em parte por via do conservacionismo e do fechamento da ditadura do Estado Novo num período de acelerada modernização, nomeadamente, na Europa
  • uma macrocefalia que persiste e que terá que ver com séculos (desde a origem da nação) de centralização do poder e da forte influência do Estado;
  • uma forte dependência das conjunturas internacionais por via da fragilidade e da dupla dependência da economia nacional (fortemente importadora e exportadora, ao mesmo tempo).

Num tempo em que as dinâmicas sociais são rápidas, caóticas e instáveis devido à própria opacidade do aprofundamento da globalização, Portugal mistura tudo, desde contextos sócio-territoriais de hiper-modernização, até situações de inércia e decadência verdadeiramente preocupantes. O território e a sociedade estão estilhaçados e não correspondem às representações e cartografias habituais do rural/urbano; litoral/interior; moderno/tradicional, etc.

Os itinerários que esta investigação propõe procuram desvendar algumas faces desse poliedro. Não se trata de uma "amostragem" que se possa extrapolar a um "todo nacional" que não existe, mas a uma sequência de ocorrências significativas que, mais do que a sua especificidade, revelam dinâmicas de fundo extensíveis à complexidade do processo de modernização nacional.